domingo, 11 de fevereiro de 2018

Empresas privadas não são mais eficientes que públicas, aponta Dieese; entenda

Cloviomar Caranine, economista da entidade, comenta sobre o documento lançado no final de janeiro
Brasil de Fato | Brasília (DF),
Governo estuda privatizar Eletrobrás / Marcos Santos/USP Imagens
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) lançou, no final de janeiro, uma nota técnica sobre o impacto das privatizações na economia, explorando a importância das empresas públicas em diversos países do mundo. Batizado de “Empresas estatais e desenvolvimento”, o documento não só faz análises históricas, como também aborda as medidas do governo Michel Temer na área. 

O estudo foi preparado pela equipe do Dieese no Rio de Janeiro, reunindo especialistas em temas como saneamento, petróleo e produção energética. Ao Brasil de Fato, Cloviomar Caranine, economista da entidade e um dos integrantes do grupo que formulou a nota, explica que no contexto atual há uma ofensiva das empresas sobre setores públicos, decorrente do excesso de liquidez financeira. Ou seja, uma busca do setor privado em converter dinheiro em bens. 

A busca por empresas públicas, segundo Caranine, tem uma razão óbvia: elas são lucrativas. Entre 2002 e 2016, as empresas públicas federais retornaram em média R$ 19 bilhões anualmente ao estado brasileiro em dividendos. 

“Não é verdade que as empresas privadas são mais eficientes que as públicas. A gente mostra isso. Como os outros países, até mesmo os de orientação neoliberal, tratam suas empresas estatais e qual o papel delas lá? Elas são importantes e esses países têm elas enquanto estratégicas. Ela pode ser usada como política do governo para fazer avançar o atendimento à população e também como uma importante alavanca de desenvolvimento. Alguns países que lá atrás tomaram a decisão de privatizar alguns setores, agora estão reestatizando”, diz. 

Um dos exemplos de reestatização que vem ocorrendo no mundo é o de fornecimento de água e saneamento, o que põe o país na contramão mundial. “O mundo está estatizando, o Brasil está privatizando”, resume ele. 

O economista cita uma série de razões para manutenção de empresas públicas, relacionadas à soberania nacional. Segundo ele, investimentos de longo prazo não são assumidos pela iniciativa privada, como a construção de usina hidrelétricas e a pesquisa que levou à descoberta do pré-sal. Outro elemento é garantir os serviços essenciais à vida, como saúde, educação, água e energia. O último ponto trazido por Caranine é a possibilidade de evitar monopólios privados, como no setor bancário.

Conjuntura
O integrante do Dieese rebate os argumentos do Planalto para realizar as privatizações. Além das já realizadas, o governo federal tem em sua agenda a privatização da Eletrobras, estatal de energia.
"O que está acontecendo é que o governo vive uma dificuldade em relação ao ajuste fiscal. Há menor arrecadação e seus gastos se mantendo ou crescendo. Há, portanto, déficit. Como saída, o governo Temer faz uma opção de, por um lado, tentar estimular o investimento privado e, por outro, aumentar a arrecadação vendendo as empresas estatais. Como efeito, há forte redução da presença de empresas estatais e públicas na prestação de serviços à sociedade. Isso já está acontecendo. Segundo, uma maior dependência de investimento, recurso e até produtos e serviços estrangeiros”, diz.

Na questão da dependência, ele cita o exemplo dos derivados do Petróleo, que gera consequências diretas ao consumidor. “O Brasil está tomando a decisão de reduzir a Petrobras, reduzir seu refino e a oferta de derivados do petróleo, para atrair empresas, que vão importar. Um dia desses teve um furacão nos Estados Unidos e o preço da gasolina subiu no Brasil e houve risco de faltar gasolina. O Brasil está importando e poderia estar refinando”, aponta.

Caranine afirma que é cedo para apontar todos os possíveis efeitos das privatizações promovidas por Temer, mas afirma que historicamente elas sequer resolvem os problemas fiscais citados pelo governo. Ele lembra que em 1995 a dívida pública representava 28% do Produto Interno Bruto. Em 2003, após o processo de privatizações no governo FHC, a dívida atingiu o patamar de 52%. 

Em sua visão, isto ocorre pois as privatizações não tocam o rentismo, principal problema econômico do país. A lógica é simples: com o aumento de 1% na taxa de juros, diz ele, a dívida aumenta em um ano o equivalente ao valor de uma empresa pública. 

Edição: Simone Freire


 

sábado, 27 de janeiro de 2018

Só acredito em você se você disser o que eu quero ouvir

27 JAN 2018 - 00:00 CET 
 
MICHAEL SHERMER 
 
 
Quando os dados contradizem nossas convicções, tendemos a ignorá-los ou manipulá-los
Assim fazem criacionistas, ativistas antivacina e ‘conspiranoicos’ do 11 de setembro
 
 
cambiar de opinión
Suposto OVNI avistado em Westall (Austrália) em 1966. UIG (Getty)
Já reparou como as pessoas sempre mudam de opinião quando confrontadas com dados que contradizem suas convicções mais profundas? Pois é, eu também nunca vi isso acontecer. E tem mais: a impressão que dá é que, ao ouvir provas esmagadoras contra aquilo que acredita, o indivíduo reafirma as suas opiniões. O motivo é que esses dados colocam em risco sua visão de mundo.

Os criacionistas, por exemplo, rejeitam as provas da evolução oferecidas por fósseis e pelo DNA, porque temem que os poderes laicos estejam avançando sobre o terreno da fé religiosa. Os inimigos das vacinas desconfiam dos grandes laboratórios farmacêuticos e acham que o dinheiro corrompe a medicina. Isso os leva a defender que as vacinas causam autismo, embora o único estudo que relacionava essas duas coisas tenha sido desmentido há bastante tempo, e seu autor tenha sido acusado de fraude. Quem defende as teorias da conspiração em torno dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos se fixam em minúcias como o ponto de fusão do aço nos edifícios do World Trade Center, porque acreditam que o Governo mentia e realizou operações secretas a fim de criar uma nova ordem mundial. Os negacionistas da mudança climática estudam os anéis das árvores, os núcleos do gelo e as ppm (partes por milhão) dos gases de efeito estufa porque defendem com paixão a liberdade, em especial a dos mercados e empresas, de agirem sem precisar se ater às rigorosas normas governamentais. Quem jurava que Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos dissecava desesperadamente sua certidão de nascimento em busca de mentiras, porque estava convencido de que o primeiro presidente afro-americano dos EUA era um socialista empenhado em destruir seu país. Os defensores dessas teorias têm em comum a convicção de que seus adversários céticos colocam em risco sua visão de mundo. E rejeitam os dados contrários às suas posturas por considerarem que provêm do lado inimigo.

O fato de as convicções serem mais fortes que as provas se deve a dois fatores: a dissonância cognitiva e o chamado efeito contraproducente. No clássico When Prophecy Fails (“quando a profecia falha”), o psicólogo Leon Festinger e seus coautores escreviam, já em 1956, a respeito da reação dos membros de uma seita que acreditava em OVNIs quando a espaçonave que esperavam não chegou na hora prevista. Em vez de reconhecerem seu erro, “continuaram tentando convencer o mundo inteiro” e, “numa tentativa desesperada de eliminar sua dissonância, dedicaram-se a fazer uma previsão atrás da outra, na esperança de acertar alguma delas”. Festinger chamou de dissonância cognitiva a incômoda tensão que surge quando duas coisas contraditórias são pensadas ao mesmo tempo.

Em seu livro Mistakes Were Made, But Not By Me (“foram cometidos erros, mas não fui eu”, 2007), dois psicólogos sociais, Carol Tavris e Elliot Aronson (aluno de Festinger), documentam milhares de experimentos que demonstram que as pessoas manipulam os fatos para adaptá-los às suas ideias preconcebidas a fim de reduzirem a dissonância. Sua metáfora da “pirâmide da escolha” situa dois indivíduos juntos no vértice da pirâmide e mostra como, ao adotarem e defenderem posições diferentes, começam a se distanciar rapidamente, até que acabam em extremos opostos da base da pirâmide.

Corrigir uma falsidade pode reforçar as percepções equivocadas do grupo, porque coloca em risco a sua visão de mundo

Em outras experiências, os professores Brendan Nyhan, do Dartmouth College (EUA), e Jason Reifler, da Universidade de Exeter (Reino Unido), identificaram um fator relacionado a essa situação: o que chamaram de efeito contraproducente, “pelo qual, ao tentar corrigir as percepções equivocadas, estas se reforçam no grupo”. Por quê? “Porque colocam em perigo sua visão de mundo ou de si mesmos.”

Por exemplo, os participantes do estudo foram apresentados a falsos artigos de imprensa que confirmavam ideias errôneas, porém muito difundidas, como a de que havia armas de destruição em massa no Iraque antes da invasão norte-americana de 2003. Quando confrontados posteriormente com um artigo que explicava que na verdade essas armas nunca haviam sido encontradas, os que se opunham à guerra aceitaram o novo artigo e rejeitaram o anterior. Entretanto, os partidários do conflito bélico argumentaram que o novo artigo os deixava ainda mais convictos da existência das armas de destruição em massa, pois seria uma prova de que o ex-ditador Saddam Hussein havia escondido ou destruído seu arsenal. Na verdade, dizem Nyhan e Reifler, entre muitos destes últimos participantes “a ideia de que o Iraque tinha armas de destruição em massa antes da invasão encabeçada pelos Estados Unidos persistiu até bem depois de que o próprio Governo de George W. Bush chegasse à conclusão de que não era assim”.

Se os dados que deveriam corrigir uma opinião só servem para piorar as coisas, o que podemos fazer para convencer o público sobre seus equívocos? Pela minha experiência, aconselho manter as emoções à margem; discutir sem criticar (nada de ataques pessoais e nada de citar Hitler); ouvir com atenção e tentar expressar detalhadamente a outra postura; mostrar respeito; reconhecer que é compreensível que alguém possa pensar dessa forma; tentar demonstrar que, embora os fatos sejam diferentes do que seu interlocutor imaginava, isso não significa necessariamente uma alteração da sua visão de mundo.

Talvez essas estratégias nem sempre sirvam para levar as pessoas a mudarem de opinião, mas é possível que ajudem a que não haja tantas divisões desnecessárias.


Michael Shermer é fundador e diretor da revista ‘Skeptic’. Este artigo foi publicado em 2017 na ‘Scientific American’



 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A música era melhor em 1987? Pare de repassar bobagens

Recentemente, muita gente no Facebook anda repassando essa imagem:
 


A imagem ainda questiona: Atrofia cultural? Ferrugem Intelectual? Alienação Midiática? Não, queridos amigos. A resposta é: mau-caratismo para ganhar “likes”, disfarçado de pseudo-intelectualismo. E você não deveria estar repassando isso. Eu entendo a crítica e entendo a sua intenção e sua “indignação”, mas sua motivação está errada. Assim, no fim das contas, em vez de passar como “erudito”, conhecedor da discografia do Zé Ramalho, você passa como pedante e bobo, como o criador dessa imagem e dessas listas. Explico.
 
A primeira coisa que você tem que questionar — e na Internet, meu amigo, você tem que questionar tudo — é qual a origem dessas listas. No Brasil não temos uma entidade que lista isso oficialmente. Quer dizer, poderíamos ter, mas se você perguntar a qualquer artista o que ele acha da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil) ou do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), a referência em ambos os casos não é muito boa. Das duas, o ECAD seria a entidade mais indicada para cuidar disso, mas sua história é complicada. É um escritório criado pelo Governo Federal (Lei 12.853/2013, que é um complemento da Lei 9.610/1998), mas é uma entidade privada. Daí imaginam-se os problemas.

O que sobram? Os mecanismos populares. E é aí que você tem que começar a questionar. Se o termômetro é os Melhores do Ano do “Domingão do Faustão”, você já começou errado. Bem errado. E não é porque é o Faustão não. Como exemplo, um desses medidores muito populares foi um programa exibido pela Rede Globo entre 1972 e 1990 chamado “Globo de Ouro”.
 

 
Esse programa teve uma reedição em 2016, que passa no canal Viva (também do grupo Globo), mas não é o caso. Vamos para o original. No início, a ideia do programa era fazer uma parada de sucesso mensal, apresentando os 10 artistas mais tocados nas rádios. Em pouco tempo, o programa se tornou semanal. E você sabe qual a prática mais comum para os atores serem tocados nas rádios? Chama-se “Jabá”.
 
Para você entender melhor o que é o Jabá, vou te recomendar o livro “Do Vinil ao Download” do André Midani, que vai nos servir também em outro momento adiante. Midani é uma figura icônica na música brasileira, foi executivo de grandes gravadoras como Odeon, Phonogram e WEA, além de ser um personagem único. No livro, Midani conta a origem do Jabá (que não é brasileira, acredite) e uma curiosíssima história sobre o Dick Asher, presidente da CBS que lançara o disco “The Wall”, do Pink Floyd (você deve ter ouvido falar) e sua aventura contra a Máfia, que controlava o que tocava nas rádios. Ele conta:
“Ao saber que o Dick tinha instruído os colaboradores a não pagar para a execução da música do Pink Floyd, o pessoal da máfia solicitou um encontro com ele. Diante de sua recusa em recebê-los, a máfia deixou o seguinte recado: a música passaria, na semana seguinte, para a 10ª colocação, na outra cairia para a 50ª, na outra semana, para a 94ª, até desaparecer para sempre, apesar da demanda do público.”
(Midani, André. Do vinil ao download. Nova Fronteira.)
 
Aqui no Brasil, a “Máfia” era representada pelos donos das rádios, DJs e pessoal correlato. Pra ter uma ideia, em uma entrevista para a Playboy em Fevereiro de 2006 (edição 368), Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o popular “Tutinha”, dono da Rádio Jovem Pan AM/FM (e criador do incrível Djalma Jorge, vale lembrar), disse (entre outras coisas):
“Sou o mais temido, lógico. Sou assim mesmo. Se não tocar na minha rádio, a Jovem Pan, o artista não estoura. E não sou bonzinho.(…) Me chamem do que quiser. Na minha rádio tem nota fiscal, tô pouco me danando. O cara para entrar no Fantástico também paga. Jabá é quando você faz ilegalmente na empresa. O que eu faço são acordos comerciais.(…) Por exemplo: hoje chegam 30 artistas novos por dia na rádio. Por que eu vou tocar? Eu seleciono dez, mas não tenho espaço para tocar os dez. Aí eu vou nas gravadoras e para aquela que me dá alguma vantagem eu dou preferência.(…) Se você tem um produto novo, você paga pra lançar. Era isso o que eu fazia. Eu tocava, mas queria alguma coisa. Promoção, dinheiro. Ah, bota aí 100 mil reais de anúncio na rádio.”
Deu pra entender, né? Você ainda acredita nas listas do Faustão e outras de mesma natureza? Bem, então vamos partir para o que seria o segundo mecanismo: as vendas de discos. Eis um termômetro que não serve de parâmetro para nada. Basta lembrar que “Xou da Xuxa 3” ainda é um dos discos mais vendidos da nossa história (3 milhões e 216 mil cópias — dados da TV Pesquisa da PUC-Rio), e se você juntar toda a “obra” musical da Xuxa, ela já vendeu mais que a Beyoncé — o que poderia ser algum tipo de orgulho nacional mas não é, uma vez que todos nós sabemos que a Xuxa não é “cantora”. Mas se isso ainda não é argumento para você, vamos voltar à imagem e ao ano de 1987.
 
O “artista do ano” de 1987 (segundo a lista da imagem) foi o Rei, Roberto Carlos. Neste ano, ele lançou o disco “Águia Dourada”, cuja principal música de trabalho foi “Tô chutando lata”. Vamos ouvir essa preciosidade:
  
 
 
 
Digamos que apesar dos bons arranjos, não é assim um dos grandes momentos do Rei. Olha essa letra:
“Que coisa boa você me telefonar Eu ‘tava aqui querendo mesmo te chamar Que coincidência, você me telefonou Na hora exata
Sei que não tenho tido muito tempo pra nós dois Mas de repente deixei tudo pra depois E ‘tô à toa, ‘tou aqui sem fazer nada
Tô chutando lata Vem ficar comigo Tô chutando lata Tô à toa”
O disco é uma sequencia de músicas mais ou menos, como “Águia Dourada”, “O Careta”, “Menina”, “Ingênuo e Sonhador” e tantas outras que já não figuram no set list do Rei há um bom tempo.
 
Já o segundo lugar (ainda segundo a lista da imagem, lembre-se) ficou com o sempre excelente Djavan, e o ótimo “Não é azul mas é mar”. Inquestionável. Só seria melhor se fosse o merecido primeiro lugar, o que sabemos ser impossível em tempos de Roberto Carlos em alta — e aí eu recomendo outro livro, “Pavões Misteriosos” do jornalista André Barcinski, onde ele conta a história de como o Tim Maia contou pro Ritchie como o Rei acabou com ele, apenas pelo fato de “Menina Veneno” ter vendido mais que Roberto Carlos:
“Depois do sucesso de Vôo de Coração, ele nunca mais teria um LP entre os 50 mais vendidos do ano no Brasil. Quando foi gravar o segundo disco, ‘E a Vida Continua’, o cantor sentiu certa má vontade por parte da CBS. ‘Eles não divulgaram o disco, não pareciam interessados’ (…) Não entendia como havia passado, em tão pouco tempo, de prioridade a um estorvo na CBS. Até que leu uma entrevista de Tim Maia à revista IstoÉ, em que o Síndico afirmava que Roberto Carlos, o maior nome da gravadora, havia ‘puxado o tapete’ de Ritchie. ‘Eu não podia acreditar. O Roberto sempre foi muito carinhoso comigo, sempre fez questão de me receber no camarim dele, sempre me tratou muito bem. Até hoje, não acredito que isso tenha partido do Roberto’.
Um dia, Ritchie foi cumprimentar Tim Maia depois de um show no Canecão. O camarim estava lotado. Assim que viu Ritchie, Tim gritou: ‘Agora todo mundo pra fora, que vou receber meu amigo Ritchie, o homem que foi derrubado da CBS pelo Roberto Carlos’.”
(Barcinski, André. Pavões Misteriosos. Três Estrelas.)
 
No livro a história segue, contando que Ritchie também comprou briga com outro Rei, desta vez, o Rei do Jabá: Chacrinha. E, bem… Acabou o Ritchie.
 
Daí você já entendeu que as vendas são manipuladas pelas gravadoras, o que invalida novamente nosso termômetro. E assim, espero que já tenhamos invalidado a lista de 1987. Mas se ainda sobrar dúvidas, perceba que a terceira colocada da lista é a Marisa Monte, cujo primeiro álbum só saiu em 1989, e só era sucesso para o público e crítica que assistiu ao seu show “Veludo Azul” (dirigido pelo Nelson Motta, já que falamos em Jabá), pois antes disso ela estava na Itália.
 
Mas eu falei que entendia a crítica da lista, e realmente entendo. A qualidade da música caiu, e isso não é um efeito brasileiro, é mundial. Estamos esperando os próximos Lennon e Mccartney, Jobim e Vinícius, mas eles não vem. E você acha que a culpa é de quem? Pablo Vittar? Anitta? Nego do Borel? Eis a grande revelação: A CULPA É SUA. Sim, sua. Você que está lendo. Explico.
 
Eu não gosto de Pablo Vittar. Nem de Anitta. Nem de “É o Tchan” ou “Molejo”, que — Deus sabe lá porque, está na moda, graças a Internet. Nem de “Raça Negra”, “Leandro e Leonardo”, “Falamansa” e vários outros que já foram “Artistas do Ano” por listas tão questionáveis quanto esta que estão divulgando. Porém, eu não gosto pelo motivo mais simples possível: não é meu estilo musical. E é só isso. Não sou de uma raça superior, erudito como quem pensa que está sendo repassando essa lista. Os artistas que citei cumprem um papel importante chamado “entretenimento”. Em sua maioria são músicas esquecíveis, que servem para um momento. Ou você conhece alguma outra música além de “Tá tranquilo, tá favorável” do MC Bin Laden? Ou viu alguma aparição recente do Falamansa onde não tocaram o “Xote da Alegria”?
 
E eis o segundo item que você deve questionar: qual a relação da música com a sociedade HOJE. Em 1987, se você ia dar uma festa e fosse cuidadoso, no máximo gravava os melhores Hits em Fitas BASF/TDK de 90 minutos, para trocar poucas vezes durante a festa (se seu Tape Deck fosse bom, a fita até virava sozinha, 90 minutos de música sem parar!), ou ainda levava todos os seus discos (LP, vinil). Eu sou desse tempo. Lembro que ia comprar os discos (poucos, porque eram caros) na Galeria do Rock em São Paulo, e vinha dentro do ônibus já lendo os encartes para saber as letras. Sabia de cor e salteado o que tinha do Lado A e do Lado B. Conhecia cada detalhe da capa, e tudo isso antes mesmo de ouvir o disco. E isso era outro ritual. Colocar o disco, acompanhando as letras, decorando as músicas. “Apreciar” a música.
 
Hoje a música é “consumida” — uma palavra que está em moda. E isto remete exatamente ao que é a música neste cenário — um item de consumo. Sempre foi. Sim, sei que para você a música é mais do que isso, é profunda, toca a alma, como fazem as obras de arte. Mas é um produto, e hoje isso é muito mais claro. Hoje você procura o artista no Spotify e escuta toda a sua discografia. Se estiver dando uma festa, pode deixar tocando por dias, pois o Spotify procura artistas semelhantes (na opinião dele) e você pode dar uma rave de três dias sem mexer no player. O que talvez você não saiba, é que esse tipo de serviço de streaming, como o Spotify, termina de matar os pequenos e novos artistas, pois para conseguir algum retorno financeiro, suas músicas tem que ser executadas muitas vezes. Mas muitas mesmo. Pra ter uma ideia, a Taylor Swift retirou toda sua discografia do Spotify, alegando que o serviço estava minando o ganho do artista (está no Wall Street Journal, escrito pela mesma). Sabe quanto ela estava ganhando? 6 MILHÕES DE DÓLARES (de acordo com o Spotify). Aí eu te pergunto: se está ruim pra Taylor Swift, imagina para o cara que ninguém conhece, que recebe em média entre US$ 0.006 e US$ 0.0084 por cada stream?
 
E aí, anda escutando muito artista novo? Apoiando seu trabalho? Comprando seu CD? Aliás, quanto tempo faz que você não compra um CD? Ou um DVD do seu artista? “Ah, mas eu vou nos shows” — você pode dizer. E aí você cai no mesmo lugar de quem escuta Pablo Vittar: você vai ao show para se divertir, não para ouvir as músicas. Porque se você não é o operador de som do show, meu amigo, você não escuta as músicas.
 
“Arte” para ser “Arte” precisa de três elementos: o artista, o “objeto” artístico e o apreciador. E é por isso que arte nunca é igual para ninguém: cada apreciador recebe a arte de um jeito. E isso não é só com a música. Ou você acha que o filme da Mulher Maravilha ou do Homem-Aranha é uma “obra de arte”? É arte voltada para o entretenimento. Como existe na música. A qualidade musical, em geral, caiu? Caiu. Não discordo disso. As referências vão ficando mais rasas — e quem gosta de música acaba voltando muito no tempo por conta disso, a busca da qualidade. Mas isso é outro assunto.
 
A questão aqui, na divulgação dessa lista, nunca foi se Pablo Vittar é “pior” que Roberto Carlos, citando o seu timbre (que de repente apareceu muito especialista por aí). Mesmo porque o Rei pode ser um grande intérprete e compositor, mas grande “cantor” é questionável. Mas — na minha visão — é muito mais o que Pablo Vittar representa hoje, e não apenas na música. No fim das contas, a lista parece mesmo um “preconceito” meio velado, meio disfarçado. Mas sem politizar a discussão, vamos falar somente de música.
 
O que talvez precisamos compreender é que a relação com a música mudou. Como disse, hoje a música é “consumida”, pois o mundo ficou mais rápido, o acesso ficou mais simples. Muitas vezes, você dá play no seu stream e não sabe o nome da música, do álbum. Muitos desses “MCs” nem lançam disco completo, mas apenas músicas que fazem parte de coletâneas, pois eles vendem entretenimento. Vale assistir ao programa “A Liga”, exibido pela Bandeirantes em Junho de 2010 com o tema “Da Favela à Fama” pra entender como essas músicas são compostas, gravadas e promovidas (aqui tem uma primeira parte, mas você encontra o programa inteiro com relativa facilidade):
 
 
 
 
Repare que eu não estou falando da qualidade musical, mas sim da função social da música. E — assim como eu — a mídia vê isso. As gravadoras, as rádios (que ainda existem, mesmo sem a força de antes), as emissoras de TV sabem o que vende, melhor que você. O que você esquece, é que faz parte disso. Insisto: quanto tempo faz que você não apoia efetivamente os artistas que você gosta? E ainda: qual o seu “guilty pleasure”? Porque você tem, vai. Confesse. Eu conto o meu: eu gosto de “Ace of Base”, uma cópia ruim do ABBA, com músicas disco de qualidade bem duvidosa (aliás, como o ABBA). Nunca fui a um show (nem sei se teve no Brasil), mas comprei um CD certa vez, quando eu já sabia que música além de arte é diversão.
 
Esse tipo de lista, apesar da crítica válida, acaba sendo uma análise muito rasa de todo um comportamento. Não é o retrato de uma geração, é o retrato de um mercado. Quer deixar o cenário equilibrado? Apoie os artistas que você gosta. Mas propagar esse tipo de lista é só mostrar que você é alienado (calma, não é um xingamento). Pare de prestar atenção em quem está cantando, e passe a prestar atenção a quem está ouvindo, e você vai entender. E isso vale pra você também.
 
Fonte

 

domingo, 5 de novembro de 2017

Professor da PUC desmonta argumentos de Moro para condenar Lula

13/Jul/2017 às 15:31


Advogado e professor da PUC rebate, ponto a ponto, todos as justificativas que constam na sentença de Sergio Moro para condenar o ex-presidente Lula. Juiz chegou a citar matéria da Globo nove vezes como prova documental 

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Fernando Hideo*

1. Não me proponho a exaurir o tema, tampouco entrar num embate próprio das militâncias partidárias, relatarei apenas as minhas impressões na tentativa de traduzir o juridiquês sem perder a técnica processual penal.

2. OBJETO DA CONDENAÇÃO: a “propriedade de fato” de um apartamento no Guarujá.
Diz a sentença: “o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa eram PROPRIETÁRIOS DE FATO do apartamento 164-A, triplex, no Condomínio Solaris, no Guarujá”.
Embora se reconheça que o ex-presidente e sua esposa jamais frequentaram esse apartamento, o juiz fala em “propriedade de fato”.

O que é propriedade ?

Código Civil – Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.
Portanto, um “proprietário de fato” (na concepção desse juiz) parece ser alguém que usasse, gozasse e/ou dispusesse do apartamento sem ser oficialmente o seu dono.
Esse conceito “proprietário de fato” não existe em nosso ordenamento jurídico. Justamente porque há um outro conceito para caracterizar essa situação, que se chama POSSE:
Código Civil – Art. 1.196. Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade.
E não foi mencionada na sentença qualquer elemento que pudesse indicar a posse do ex-presidente ou de sua esposa do tal triplex: tudo o que existe foi UMA visita do casal ao local para conhecer o apartamento que Léo Pinheiro queria lhes vender.
Uma visita.
Portanto, a sentença afirma que Lula seria o possuidor do imóvel sem nunca ter tido posse desse imóvel. Difícil entender ? Impossível.
3. TIPIFICAÇÕES:
– corrupção (“pelo recebimento de vantagem indevida do Grupo OAS em decorrência do contrato do Consórcio CONEST/RNEST com a Petrobrás”)
– lavagem de dinheiro (“envolvendo a ocultação e dissimulação da titularidade do apartamento 164-A, triplex, e do beneficiário das reformas realizadas”).
4. PROVAS DOCUMENTAIS: um monte de documento sobre tratativas para compra de um apartamento no condomínio do Guarujá (nenhum registro de propriedade, nada que indique que o casal tenha obtido sequer a posse do tal triplex) e uma matéria do jornal o globo (sim, acreditem se quiser: há NOVE passagens na sentença que fazem remissão a uma matéria do jornal o globo como se prova documental fosse).
Esse conjunto de “provas documentais” comprovaria que o ex-presidente Lula era o “proprietário de fato” do apartamento.
Mas ainda faltava ligar o caso à Petrobras (a tarefa não era assim tão simples, porque a própria denúncia do Ministério Público do Estado de São Paulo — aquela mesmo que citava Marx e “Hegel” — refutava essa tese)…
5. PROVA TESTEMUNHAL: aí entra a palavra dos projetos de delatores Léo Pinheiro e um ex-diretor da OAS para “comprovar” que o apartamento e a reforma seriam fruto de negociatas envolvendo a Petrobras.
Não há nenhuma prova documental para comprovar essas alegações, apenas as declarações extorquidas mediante constante negociação de acordo de delação premiada (veremos adiante que foi um “acordo informal”).
6. CORRUPÇÃO
Eis o tipo penal de corrupção:
Art. 317 – Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem
Portanto, deve-se comprovar basicamente:
– solicitação, aceitação da promessa ou efetivo recebimento de VANTAGEM indevida; e
– CONTRAPARTIDA do funcionário público.
No caso, o ex-presidente foi condenado “pelo recebimento de vantagem indevida do Grupo OAS em decorrência do contrato do Consórcio CONEST/RNEST com a Petrobrás”.
O pressuposto mínimo para essa condenação seria a comprovação:
– do recebimento da vantagem (a tal “propriedade de fato” do apartamento); e
– da contrapartida sobre o contrato do Consórcio CONEST/RNEST com a Petrobrás.
Correto ?
Não.
Como não houve qualquer prova sobre a contrapartida (salvo declarações extorquidas de delatores), o juiz se saiu com essa pérola:
Basta para a configuração que os pagamentos sejam realizadas em razão do cargo ainda que em troca de atos de ofício indeterminados, a serem praticados assim que as oportunidades apareçam.”
E prossegue, praticamente reconhecendo o equívoco da sua tese: “Na jurisprudência brasileira, a questão é ainda objeto de debates, mas os julgados mais recentes inclinam-se no sentido de que a configuração do crime de corrupção não depende da prática do ato de ofício e que não há necessidade de uma determinação precisa dele”.
Ou seja, como não dá pra saber em troca de que a OAS teria lhe concedido a “propriedade de fato” do triplex, a gente diz que foi em troca do cargo pra que as vantagens fossem cobradas “assim que as oportunidades apareçam” e está tudo certo pra condenação !
Para coroar, as pérola máxima da sentença sobre o crime de corrupção:
– “Foi, portanto, um crime de corrupção complexo e que envolveu a prática de diversos atos em momentos temporais distintos de outubro de 2009 a junho de 2014, aproximadamente”.
Haja triplex pra tanta vantagem…
– “Não importa que o acerto de corrupção tenha se ultimado somente em 2014, quando Luiz Inácio Lula da Silva já não exercia o mandato presidencial, uma vez que as vantagens lhe foram pagas em decorrência de atos do período em que era Presidente da República”.
Haja crédito pra receber as vantagens até 4 anos depois do fim do mandato…
7. LAVAGEM DE DINHEIRO
A condenação por corrupção se baseia em provas inexistentes, mas a pior parte da sentença é a condenação pelo crime de lavagem de dinheiro.
Hipótese condenatória: lavagem de dinheiro “envolvendo a ocultação e dissimulação da titularidade do apartamento 164-A, triplex, e do beneficiário das reformas realizadas”.
Ou seja, o ex-presidente Lula teria recebido uma grana da OAS na forma de um apartamento reformado e, como não estava no nome dele, então isso seria lavagem pela “dissimulação e ocultação” de patrimônio.
Isso é juridicamente ridículo.
Lavagem é dar aparência de licitude a um capital ilícito com objetivo de reintroduzir um dinheiro sujo no mercado. Isso é “esquentar o dinheiro”. Exemplo clássico: o cara monta um posto de gasolina ou pizzaria e nem se preocupa com lucro, só joga dinheiro sujo ali e esquenta a grana como se fosse lucro do negócio.
Então não faz o menor sentido falar em lavagem nesses casos de suposta “ocultação” da grana. Do contrário, o exaurimento de qualquer crime que envolva dinheiro seria lavagem, percebem ?
Não só corrupção, mas sonegação, roubo a banco, receptação, furto… Nenhum crime patrimonial escaparia da lavagem segundo esse raciocínio, pq obviamente ninguém bota essa grana no banco !
8. DELAÇÃO INFORMAL (OU SEJA, ILEGAL) DE LÉO PINHEIRO
Nesse mesmo processo, Léo Pinheiro foi condenado a 10 anos e 8 meses (só nesse processo, pois há outras condenações que levariam sua pena a mais de 30 anos).
Mas de TODAS AS PENAS a que Léo Pinheiro foi condenado (mais de 30 anos) ele deve cumprir apenas dois anos de cadeia (já descontado o período de prisão preventiva) porque “colaborou informalmente” (ou seja, falou o que queriam ouvir) mesmo SEM TER FEITO DELAÇÃO PREMIADA OFICIALMENTE.
Ou seja, em um INÉDITO acordo de “delação premiada informal”, ganhou o benefício de não reparar o dano e ficar em regime fechado somente dois anos (independentemente das demais condenações).
Detalhes da sentença:
O problema maior em reconhecer a colaboração é a FALTA DE ACORDO de colaboração com o MPF. A celebração de um acordo de colaboração envolve um aspecto discricionário que compete ao MPF, pois não serve à persecução realizar acordos com todos os envolvidos no crime, o que seria sinônimo de impunidade.” –> delação informal
Ainda que tardia e SEM O ACORDO DE COLABORAÇÃO, é forçoso reconhecer que o condenado José Adelmário Pinheiro Filho contribuiu, nesta ação penal, para o esclarecimento da verdade, prestando depoimento e fornecendo documentos” –> benefícios informais
é o caso de não impor ao condenado, como condição para progressão de regime, a completa reparação dos danos decorrentes do crime, e admitir a progressão de regime de cumprimento de pena depois do cumprimento de dois anos e seis meses de reclusão no regime fechado, isso independentemente do total de pena somada, o que exigiria mais tempo de cumprimento de pena” –> vai cumprir apenas dois anos
O período de pena cumprido em prisão cautelar deverá ser considerado para detração” –> desses dois anos vai subtrair o tempo de prisão preventiva
O benefício deverá ser estendido, pelo Juízo de Execução, às penas unificadas nos demais processos julgados por este Juízo” –> ou seja, de todas as penas (mais de 30 anos) ele irá cumprir apenas dois anos em regime fechado…

9. TRAUMAS E PRUDÊNCIA
Cereja do bolo: o juiz diz que “até caberia cogitar a decretação da prisão preventiva do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, mas “considerando que a prisão cautelar de um ex-Presidente da República não deixa de envolver certos traumas, a prudência recomenda que se aguarde o julgamento pela Corte de Apelação antes de se extrair as consequências próprias da condenação”.
É a prova (agora sim, uma prova !) de que não se julga mais de acordo com a lei, mas pensando nos traumas e na (im)prudência…

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Independentemente da sua simpatia ideológico-partidária, pense bem antes de aplaudir condenações dessa natureza.
Eis o processo penal de exceção: tem a forma de processo judicial, mas o conteúdo é de uma indisfarçável perseguição ao inimigo !
Muito cuidado para que não se cumpra na pele a profecia de Bertolt Brecht e apenas se dê conta quando estiverem lhe levando, mas já seja tarde e como não se importou com ninguém…
*Fernando Hideo é advogado e professor da PUC-SP


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Os efeitos negativos da religião na sociedade


 
"Se as pessoas são boas porque temem uma punição ou porque esperam uma recompensa, então somos todos, de fato, uma espécie lamentável" ~ Albert Einstein
A religião é como um lento veneno. A assim como um veneno mata seu corpo, da mesma forma a religião mata sua alma. Há apenas uma diferença: a religião parece com um medicamento e quando você acha que ele está lá para seu próprio benefício, ele secretamente te mata. E antes mesmo de você tomar conhecimento dela, a religião já o transformou em uma alma sem vida.
 
Os efeitos negativos da religião na sociedade são enormes. Aqui estão as principais formas nas quais a religião está destruindo a vida das pessoas:
 

Religião é encher as pessoas com medo

Religião é uma das principais razões pela qual as pessoas têm medo de viver. E quando eu digo "viver" não me refiro apenas a sobreviver. Sobreviver é uma coisa, até mesmo as pedras fazem isso, mas viver é uma coisa completamente diferente. Viver significa ser sensível, significa sentir-se, crescer, descobrir seu potencial e atingir novos patamares a cada momento.
 
O ponto de partida da religião é o medo. A religião está baseada na ideia de pecado: Todos nascem pecadores, as almas impuras, se não se purificarem em breve estarão condenadas ao inferno por Deus, onde eles vão arder no sofrimento eterno.
 
A fim de evitar o inferno, a religião exige que as pessoas provem a Deus de que elas são dignas do céu. Como? Seguindo o dogma da religião. Naturalmente quando as pessoas são postas em tal situação, elas se encontram em um estado contínuo de medo. Elas estão sempre com medo de que suas ações não estejam de acordo.
 
Quando você acredita que está sendo perpetuamente vigiado por um olho que tudo vê, você acaba por agir de determinadas maneiras para agradar a Deus. O medo do inferno está continuamente em sua mente, o enchendo com preocupação e ansiedade e isso não permite que você viva espontaneamente. Como resultado, a maioria das pessoas religiosas tornam-se neuróticas e em alguns casos até mesmo esquizofrênicas.
 

Religião é transformar as pessoas contra si mesmas

 
As exigências que a religião coloca sobre as pessoas são irrealistas. A religião, por um lado ensina que todos nascem pecadores. É de pecado que somos feitos e tudo que nós seres humanos estamos fazendo é obrigado a ser corrompido, de uma forma ou de outra. Porém, por outro lado, a religião ensina as pessoas a se comportarem da melhor maneira possível – em outras palavras, sermos perfeitos, como anjos. Mas infelizmente, as pessoas não são anjos, então como elas podem agir assim, de forma tão antinatural?
 
Mas isso tem muitas consequências graves. Quando você deixa de fazer o que Deus ordenou, você começa a odiar-se. Você começa a aceitar a ideia de que você é realmente uma má pessoa, corrompida e não é digna como um ser humano. E uma vez que você fizer isso, sua vida enche de amargura raiva e ressentimento – um verdadeiro inferno na terra.
 

Religião é transformar as pessoas, uma contra as outras

O outro é apenas uma projeção de si mesmo, um espelho, no qual você pode ver o seu próprio reflexo.
Uma vez que você começa a odiar a si mesmo, você é obrigado a começar a odiar os outros também. Quando você aceita a ideia de que você é um pecador, você começa a ver aqueles ao seu redor como pecadores. E quando se acredita que os outros são pecadores, sempre há um medo profundamente enraizado dentro de você de que os outros são corrompidos, estão cheios de má vontade, querem te prejudicar e sobretudo são um inimigo.
 
Além disso, você não vai tolerar ideologias religiosas diferentes da que você segue. É por isso que vemos as religiões lutando uma contra as outras. Da mesma forma os religiosos lutando contra os não religiosos. Uma ideologia religiosa é identificada como o único e verdadeiro caminho, o que leva a tremenda consequências negativas - o ódio, racismo e todo o tipo de violência. Basta pensar em quantas guerras foram travadas ao longo da história em nome de Deus e da religião.
 

Religião é manter as pessoas na ignorância

 
Viver significa aprender, e a vida é fuma lição contínua. Quando, no entanto, você tem crescido condicionado a acreditar o que é certo e errado de acordo com a religião e te disseram que duvidar da religião significa ir para o inferno, naturalmente você fica com medo de buscar o verdadeiro conhecimento. Você não pesquisa para encontrar a verdade, para aprender e, portanto não cresce como ser humano.
 

Conclusão

Como você pode ver, os efeitos negativos da religião na sociedade são enormes. Seguir cegamente uma religião, ou qualquer outra ideologia, simplesmente significa restringir sua percepção para suprir-se e viver na hipocrisia – em outras palavras, viver em sofrimento e miséria.
 
Muitas pessoas preferem seguir a religião mesmo sofrendo com essa escolha, simplesmente porque a religião os liberta da responsabilidade pessoal. Para viver espontaneamente, o indivíduo teria que assumir a responsabilidade por si mesmo, e isso é certamente doloroso. A vida é feita de escolhas e fazer escolha certas nem sempre é fácil. Sendo assim, as pessoas preferem não fazer escolhas para si, preferem que os outros escolham para eles. 
 
As pessoas preferem andar em caminhos feitos por outros, em vez de criar seus próprios caminhos.
 
Mas mesmo que deixássemos de ter uma autoridade para nos dizer o que fazer e o que não fazer, nunca seremos livres. E mesmo se um dia nos tornássemos livres, nunca seremos felizes ou pacíficos.
"Só ovelhas precisam de um pastor." ~ Voltaire
Fonte


domingo, 7 de maio de 2017

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?




7 maio 2017

Em meio a crise econômica e política na Alemanha, nazismo trazia ideia de "revolução social",
mas só para os "arianos".  Direito de imagem Getty Images  

"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que, na verdade, o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam um terceiro caminho", afirma.

Direito de imagem Reprodução Twitter
Direito de imagem Reprodução Twitter


Nacionalismo
A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".


 
Segundo especialistas, judeus eram perseguidos por simbolizarem dois "inimigos" do nazismo:
o capitalismo liberal e o socialismo marxista.
Direito de imagem Getty Images.


'Marxistas e capitalistas'
Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução que garantiria justiça social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.
"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida o ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturais de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."

'Precisão científica'
A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, nos dias de hoje, associa o movimento a partidos de extrema-direita que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco a comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como "direita".

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz. 

Direito de imagem Reprodução Twitter



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'Crise de referências'
Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."

Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo mais à direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."



 

sábado, 6 de maio de 2017

Professor da UFPB explica como a Rede Globo Manipula e influência desinformados

 
 
Segundo Paiva, a emissora arquiteta uma “construção falseada” da realidade do país 
 
 

O professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, Cláudio Paiva expôs, em cinco tópicos, a estratégia da Rede Globo em seus telejornais e novelas.

Segundo Paiva, a emissora arquiteta uma “construção falseada” da realidade do país “de acordo com os seus interesses mercadológicos e políticos”.

Leia:

Cinco teses sobre o paradoxo da Rede Globo. Telejornal fascista & minissérie "progressista":

1) O telejornal produz um "efeito de verdade" que convence o telespectador pouco informado, e a série (telenovela) aparece ao público como uma ficção descolada do real;

2) Nada escapa às garras da (no)velha indústria cultural, que transforma a memória dos "anos de chumbo" em mercadoria fascinante embalada em technicolor; essa mesma indústria usa uma "retórica da imagem" (Barthes) e agressivas técnicas de persuasão (e despolitização) no JN;

3) A descontextualização histórica e a espetacularização (Debord) das séries com temas complexos embaça a consciência social e política do televidentes. Logo, a narrativa da ditadura e repressão política se configura como algo ocorrido lá longe, num passado remoto, sem vínculos com os poderes dominantes contemporâneos. Enquanto isso, o telejornal - através de falas-textos-imagens - simula uma reportagem fidedigna aos acontecimentos narrados (news making, pós-verdade, etc);

4) No passado recente, o Jornal Nacional se desculpou pelas derrapagens na "narração dos fatos" (Muniz Sodré) referentes à vida social e política da nação. E, hoje, arquiteta um construção falseada da realidade brasileira, de acordo com os seus interesses mercadológicos e políticos;

5) Considerando a especificidade do atual momento histórico, a exibição na Globo da série "Os dias eram assim" funciona como uma espécie de álibi; a emissora mostra-se ética e responsável na denúncia dos crimes contra a humanidade, para uma platéia alienada, e além disso sabe que (se sobreviver) será cobrada pela sua manipulação dos fatos, no que concerne a esfera sócio-política e institucional recente. E, no âmbito do excessivo volume de informação (entrecortada por slogans publicitários), uma narrativa crítica (que mostra - por exemplo - a truculência policial) tende a se diluir, se desmanchar, neutralizando o potencial reflexivo dos telespectadores. Enfim, no estranho beco em que a cultura e a política se meteram, em que tudo nos aparece como simulação e simulacros (Baudrillard), talvez nos reste a alternativa de buscar informações na internet e redes sociais, um espaço dialógico e polifônico (Bakhtin), em que se agitam vozes dissonantes e quiça esclarecedoras, num tempo nublado.

Fonte